Edição 2010

Atividades da Edição 2010 - Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais

 

Oficinas com os Mestres

 

As oficinas foram realizadas de15 a16 de julho de 2010, na sala Papirus da Faculdade de Educação-UnB e constituíram-se como partes integrantes do seminário. Tiveram a finalidade de constituir uma síntese prévia da proposta metodológica a ser desenvolvida durante a disciplina.  A experiência possibilitou pontos de convivência capazes de favorecer o intercâmbio dos saberes tradicionais, populares e acadêmicos a fim de estabelecer relações dialéticas entre teoria e prática, demonstrando a riqueza e a diversidade étnica e cultural desses saberes. Promoveu mudanças de postura de docentes, pesquisadores e estudantes possibilitando a abertura para a utilização de metodologias participativas.

Residência dos mestres

 

Os mestres convidados passaram uma semana realizando a residênciaem Brasília.  Algumasatividades se deram em espaços da universidade de Brasília e outras fora do Campus Darcy Ribeiro. 

Durante este período foram promovidos diversos encontros dos quais mestres e professores fizeram partes, acompanhados da equipe de coordenação antropológica e pedagógica do projeto: acesso aos espaços acadêmicos e a aulas com os alunos nas disciplinas ministradas pelos dos professores parceiros; encontros em espaços relacionados à temática do saber de cada mestre; encontros com outros mestres do Distrito Federal.  Tiveram também a oportunidade de identificar interesses comuns e propor adaptações dos espaços e das convenções temporais do ensino acadêmico.  A partir daí prepararam, junto com os professores parceiros e equipes de coordenação antropológica e pedagógica a metodologia e os recursos didáticos necessários para ministrarem a disciplina Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais.

 

Aulas com os Mestres – Segundo semestre de 2010

Módulo - Dança, música e Teatro do Cavalo Marinho

As aulas deste módulo foram ministradas pelo Mestre Biu Alexandre, acompanhado pelo banco de instrumentistas que integra o Cavalo Marinho Estrela de Ouro de Condado (PE), seu amigo Luís Paixão (rabequista), seus dois filhos, Agnaldo (pandeirista) e Risoaldo (tocador de baje) e o aprendiz Jomar, (tocador de mineiro) e pelas professoras parceiras Luciana Hartman e Rita de Cássia (Artes Cênicas).

Durante as aulas, mestre Biu Alexandre apresentou a brincadeira realizada no sertão pernambucano, destacou a importância do Cavalo Marinho no mundo contemporâneo e suas relações com os saberes da ancestralidade africana. Abordou os elementos performáticos que compõem o cavalo marinho, manifestação popular da Zona da Mata açucareira de Pernambuco que envolve, sobretudo, a representação cênica de figuras expressadas pela dança, toadas e loas e que traduz, em determinado modelo de narrativa, tipos populares. De acordo com seu método, o mestre afirmou que só se ensina o que se aprende e se sabe através da própria vivência.

 

Módulo - Educação ambiental e reflorestamento: Saber viver na terra

Este módulo foi ministrado pelo mestre indígena Benki Ashaninka, teve como professora parceira Nina Laraneira (Faculdade UnB/Planaltina (FUP/UnB). Os princípios que nortearam as aulas consistiram em possibilitar aos estudantes a aquisição de uma visão crítica sobre os problemas ambientais vividos atualmente e a reflexão sobre o papel de cada um neste contexto, sob a perspectiva local e global.

 As aulas consistiram em ricos momentos de diálogos onde os estudantes puderam ter uma noção melhor dos processos de ensino/aprendizagem das crianças Ashaninka a partir dos mitos e histórias dos antepassados; do trabalho dos professores indígenas e acerca do trabalho prático realizado por Benki e pelos Ashaninka no processo de manejo agroflorestal, envolvendo as crianças e todas as pessoas da aldeia no plantio de espécies nativas, manejo de quelônios, peixes e outros animais.

As aulas realizadas na Chácara Semente - IPOEMA (Lago Oeste/DF) foram conduzidas de forma a proporcionar uma vivência entre os estudantes e a natureza local, constituíram uma importante experiência prática, tanto no que se refere à aprendizagem sobre permacultura (conceito relacionado à construção de sistemas ambientais sustentáveis), quanto no que se refere ao processo reflexivo sobre a relação respeitosa e harmônica do ser humano para com as outras manifestações de vida que o cercam. Além de pajé, Benki também é compositor, músico, escultor e pintor. O fechamento do curso foi uma descrição de aspectos tradicionais e da religiosidade em sua aldeia no contexto das ressignificações que os Ashaninka vivenciam atualmente.

 

Módulo - natureza e cultura: os sentidos e sentimentos

 

As aulas deste módulo ficaram por conta da professora mestra quilombola Lucely Pio, da Comunidade do Cedro (Mineiros-Go), acompanhada de seu irmão, o aprendiz Ivan Pio e da professora parceira, Silvéria Santos (Faculdade de Saúde/UnB).

Durante as aulas os estudantes tiveram uma demonstração das aplicações práticas e terapêuticas resultantes do cuidado com o ambiente e as plantas. Lucely buscou trazer para a sala de aula os saberes tradicionais advindo de uma comunidade quilombola no cerrado, voltados para a promoção da saúde através dos recursos naturais locais, no caso, a utilização das plantas em medicamentos artesanais. Lucely fez breve introdução teórica sobre a prática de produção dos fitoterápicos tradicionais a partir de tópicos, tendo como universo demonstrativo o bioma do cerrado – ela trabalha com 450 espécies nativas do cerrado.

Lucely ensinou técnicas sustentáveis de coleta que preservam o vegetal. Também se referiu a regras de coleta conforme cada espécie e parte colhida, no sentido de preservar o princípio ativo, cada parte deve ser colhida a partir da observação das horas do dia ou das fases da lua e das estações. Conforme determinados períodos de tempo e conforme as fases de reprodução das plantas (com frutos ou com flores), o princípio ativo se desloca e se concentra em determinada parte – conhecimento preservado pelo saber tradicional do Cedro.

 

Módulo – Saberes Sociomusicais

 

O encontro de saberes deste módulo foi ministrado pelo Mestre Zé Jerome de (Cunha/SP), acompanhado pelos integrantes e dançadores do Moçambique: o contramestre Benedito Antônio, José Ivo Antônio - irmão e sobrinho do mestre respectivamente - e seu Jorge Policarpo,  por seu neto Matheus de 12 anos e pelos cuidados de sua filha Laura Tereza. Teve como professor parceiro e músico Antenor Ferreira (Faculdade de música).

 Este módulo teve como objetivo trazer as diferentes formas do conhecimento tradicional, através dos saberes populares, pouco correntes na universidade, propiciando o encontro entre os dois universos (o acadêmico e o popular), ampliando as perspectivas de entendimento do aluno sobre algumas questões básicas de interesse da Música e demais áreas de conhecimento através da interdisciplinaridade. A partir deste módulo, os estudantes compreenderam as expressões musicais e performáticas do Moçambique (SP) – uma forma de expressão do universo do Congado do Vale do Paraíba de São Paulo. O reconhecimento da crença e da valorização dos saberes tradicionais advindos da cultura africana também foram abordadas.

 

Módulo - arquitetura da casa tradicional xinguana

 

O módulo foi ministrado pelo mestre indígena Maniwa Kamayurá que além de arquiteto, declarou ser também cantor e coordenador de festa. Foi acompanhado de seu filho e aprendiz Wali Kamayurá, que trabalha com ele no ofício da casa tradicional xinguana, e pelo professor parceiro Jaime Almeida (Departamento de Arquitetura/UnB).

 Durante as aulas o mestre abordou os saberes relativos às formas de organização social e ocupação do espaço e a arte de construir moradias de maneira sustentável e integrada ao ambiente. Todas essas dimensões foram proporcionadas pela vivência da construção de uma maquete da casa tradicional indígena Kamayurá, em uma demonstração de realidades alternativas para as construções arquitetônicas.

 Dadas as especificidades deste módulo, foi necessário um maior número de aulas.  O mestre explicitou que o eixo da arquitetura da casa Kamayurá está ancorado na tradição, e por esse motivo, fez um relato do mito da criação e ressaltou que existe uma conexão entre a construção da casa, os processos socioculturais e a religiosidade do povo. Ressaltou, durante o curso, que a casa é muito importante para seu povo, pois representa uma pessoa. Todas as partes da casa estão ligadas à parte do corpo da pessoa (cabeça, dente, boca, bumbum, dentre outras).

As aulas práticas para a construção da maquete aconteceram no espaço da Oficina do Centro de Bambu (CPAB/UnB) na Granja do Torto/DF, que possibilitou um local mais apropriado para as atividades. Durante a construção da maquete da casa Kamaiurá os estudantes puderam vivenciar o diálogos entre o saber acadêmico e o saber tradicional indígena. Houve de fato a integração dos conhecimentos científicos das áreas de matemática, engenharia e arquitetura, abordadas pelo professor parceiro na UnB, com os conhecimentos tradicionais que abrangem essas e outras áreas, que o arquiteto indígena, mestre Maniwa, trabalhou com muita propriedade.

 


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