Edição 2011

Módulo I

Mestres do Distrito Federal e Entorno

Neste módulo, procurou-se chamar a atenção dos alunos para a diversidade das práticas e dos conhecimentos tradicionais presentes no Distrito Federal e em suas proximidades. A primeira aula do módulo foi ministrada pela mestra Francisca, benzedeira, parteira e raizeira de Goiânia, que compartilhou a sua trajetória de vida e ensinou, entre muitas coisas, que para ajudar outras pessoas é preciso primeiro cuidar da própria vida espiritual. Explicou que seu conhecimento interage com o mundo espiritual e com a natureza por meio da manipulação das ervas, as quais têm seus próprios segredos. Dona Francisca frisou que as técnicas e o conhecimento de nada valem se não servirem à vida, se não estiver conectado com o propósito de transformar o mundo. E esta foi também a proposta apresentada pelo mestre de capoeira Gilvan, que no terceiro encontro do módulo levou para a turma uma oficina de Capoterapia, técnica criada pelo próprio mestre, que consiste em reunir os movimentos da arte da capoeira em uma terapia com o objetivo de transformar a vida das pessoas para melhor.

Em uma roda de prosa muito animada na segunda aula, a mestra Martinha do Coco, do Paranoá, expôs a sua biografia, explicitando o seu ponto de vista e sua própria experiência sobre as dificuldades para estabelecimento de uma família nordestina em Brasília e das condições de trabalho que essas pessoas encontraram. Ao falar sobre a banda de coco, Dona Martinha explicou que a harmonia da música depende da harmonia entre as pessoas: “É preciso ter harmonia consigo e então transportar essa harmonia para o instrumento e para as outras pessoas”. Nas duas últimas aulas do módulo, Cristiane Olimpio (Fofa), jovem integrante do Grupo “Cacuriá Filha Herdeira” apresentou a trajetória e as dificuldades que o grupo enfrenta para manter a sua arte. Na segunda sessão, Fofa e Vinícius Olimpio organizaram uma oficina de cacuriá na sala de aula.

Módulo II

Álvaro Tukano e Casimiro Tukano

“Xamanismo e Mitologia Tukano”. As aulas versaram principalmente sobre a mitologia do povo Tukano e foram inauguradas por uma palestra sobre a criação do mundo, segundo a mitologia Tukano. A partir deste eixo filosófico, as demais sessões abordaram a espiritualidade, os rituais, as técnicas e também os aspectos políticos, com destaque para uma aula em que Álvaro e Casimiro expuseram sua visão acerca da política indigenista brasileira. É importante insistir neste tópico, dado que as versões que normalmente se conhecem na academia são aquelas cujas ações são muitas vezes criticadas pelos povos indígenas.

Também é importante ressaltar que os mestres têm conduzido as aulas da disciplina de um modo muito sério. Para Álvaro e Casimiro, esta porta que está se abrindo na Universidade com o Encontro de Saberes, ocasião em que os mestres dos saberes tradicionais e os professores universitários dialogam de igual para igual, tendo o objetivo de reparar séculos de dominação colonial. Eles encaram sua participação como um impulso para a total inclusão das minorias étnicas no debate acadêmico e político nacional.

Módulo III

Biu Alexandre

A chave do baú, Mariana tem

          Você sabe, você viu ou não meu bem?

As aulas do módulo “Dança, música e teatro do Cavalo Marinho” foram ministradas pelo mestre Biu Alexandre, com o auxílio do grupo que compõe o banco de instrumentistas: Luís Paixão (rabeca), seu filho mais velho Agnaldo (pandeiro), seu filho Risoaldo (Bajé) e Jomar Júnior (mineiro). Mestre Biu conduziu as aulas com muita propriedade, inicialmente fez uma contextualização geográfica e histórica sobre o “Cavalo Marinho Estrela de Ouro” de Condado (PE).

Nas aulas práticas, os estudantes puderam experimentar o sabor da produção coletiva e da interação entre público e brincantes em cena, através da representação da dança dos arcos coloridos, onde os mesmos expuseram os ornamentos da brincadeira que confeccionaram. Demonstraram também as habilidades cognitivas e corporais apreendidas através das figuras, toadas e loas que compõem o Cavalo Marinho e que fizeram parte do espetáculo conduzido pelo mestre durante suas aulas.

Módulo IV

Lucely Pio

Com o título “A sabedoria das plantas medicinais na tradição afro-brasileira”, a mestra Lucely, auxiliada por sua irmã Ivanita, naturais do quilombo do Cedro no município de Mineiros - GO, dividiu o seu módulo em três frentes: I) o reconhecimento das plantas medicinais do cerrado, com uma aula no campus da UnB; II) o manejo das espécies, desde o plantio até a seleção e III) a preparação de medicamentos naturais e de alimentação enriquecida. Em meio às aulas práticas, Lucely abordou com notável profundidade a interação do ser humano com o meio ambiente.

Segundo a mestra, é preciso estar sempre aberto para o sentimento das plantas. Nos dias atuais, as pessoas têm devotado muito pouco ou nada a esta tarefa essencial que consiste em fazer-se parte da natureza. Por este motivo, muitos distúrbios físicos e emocionais têm afligido a humanidade. Uma prova disso é a dominação dos tratamentos alopáticos, que quase sempre agem apenas como paliativo para um distúrbio muito maior que é o afastamento da vida espiritual. A espiritualidade é esta integração do indivíduo com o meio ambiente, o entendimento de que fazemos parte de um todo, ao lado das plantas e dos animais. Para introduzir estas concepções, Lucely propôs a todos os alunos trabalharem em conjunto nas fases da produção dos medicamentos.

 Módulo V

 Os Arturos 

Alguns não se encontram mais entre nós...

Mas suas sementes germinaram e deram bons frutos...

Suas lições jamais serão esquecidas...

                                       (Os Arturos)

As aulas deste módulo foram ministradas pelos mestres que compõem o grupo dos “Arturos”: Jorge Antônio dos Santos (Capitão e Segundo Ministro da Guarda de Moçambique), Joel Catarino da Silva (1 º Capitão da Guarda de Moçambique), Marcos Eustáquio dos Santos (Caixeiro da Guarda do Congo), Antônio Marcio dos Santos (Capitão Pé de Coroa da Guarda de Moçambique). Os mestres conduziram todo o trabalho ancorado nas tradições culturais, sagradas e religiosas que integram o Reinado de Nossa Senhora do Rosário na Comunidade dos Arturos, localizada no município de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Abordaram com propriedade a trajetória da vida do fundador da comunidade, Arthur Camilo Silvério, que foi marcada pela fé e pelo trabalho.

Evidenciaram também a hierarquia no reinado dos Arturos e os temas que compõem o Congadoem Minas Gerais: o candombe, o congo, o moçambique, o batuque, a folia de reis; assim como a integração da comunidade no trabalho coletivo nos preparativos das festividades, com ênfase na culinária e na ornamentação própria dos Arturos.

As aulas práticas de construção dos instrumentos (tambores e gunga), dos cantos, danças e ritmos do reinado, desencadearam nos estudantes e equipe, o desejo de conhecer de perto as festas e rituais sagrados e de participar dessa integração de sabores, cores e devoção, que marcam o percurso da comunidade dos Arturos em busca de uma vida livre de opressão.  

Por: Diogo Bonadiman e Maristela Sousa Torres (Coordenação Pedagógica/Antropológica "Encontro de Saberes")

 

 

 

 

 


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