Encontro de Saberes: mestres tradicionais na sala de aula da universidade
O programa que inverteu a direção do conhecimento: em vez de a universidade estudar as culturas tradicionais, mestres e mestras dessas culturas passaram a ensinar dentro dela, com créditos, ementa e avaliação.
O que é
O Encontro de Saberes é uma disciplina de graduação em que cada módulo é ministrado por um mestre ou mestra de cultura tradicional: lideranças indígenas, mestres de terreiro, de brincadeiras populares como o cavalo-marinho e o maracatu, artesãos, parteiras, raizeiros. O professor universitário atua como mediador; quem conduz a aula é o mestre, no seu próprio modo de transmitir conhecimento, que costuma envolver corpo, canto, trabalho manual e oralidade.
O estudante se matricula como em qualquer disciplina, recebe créditos e é avaliado. O que muda é o lugar de fala: o saber tradicional entra na universidade como conhecimento em pé de igualdade, não como objeto de estudo.
Como nasceu
A disciplina foi criada em 2010 na Universidade de Brasília, no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), programa do CNPq coordenado pelo antropólogo José Jorge de Carvalho. A proposta partia de um diagnóstico: as políticas de cotas estavam abrindo a universidade a estudantes negros, indígenas e de escola pública, mas o currículo continuava exclusivamente eurocêntrico. Incluir pessoas sem incluir os seus saberes era uma inclusão pela metade.
Nos primeiros anos, o formato foi testado na UnB com módulos de mestres de diferentes regiões do país, registrados em vídeo e em publicações do instituto. Parte desse acervo está referenciada na seção Acervo deste site.
Expansão
Ao longo da década seguinte, o modelo foi adotado por dezenas de universidades públicas, entre elas a UFMG, a UFJF, a UFPA, a UFSB, a UFG e a UFRGS, cada uma com o seu desenho: algumas como disciplina optativa aberta a todos os cursos, outras integradas a programas de formação de professores ou a licenciaturas interculturais indígenas. Jornais universitários da UFRGS, da UFG e da UFJF registraram, em 2023 e 2024, seminários e edições locais do programa, que são a melhor fonte sobre o estado atual em cada instituição.
Notório saber
Um desdobramento importante foi o reconhecimento formal dos mestres. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9.394/1996, art. 66, parágrafo único) admite que o notório saber, reconhecido por universidade com curso de doutorado em área afim, substitua o título acadêmico exigido para o magistério superior. Com base nisso, universidades passaram a conceder a mestres tradicionais o título de notório saber, o que permite a contratação e o reconhecimento de sua trajetória dentro da carreira acadêmica. O tema tem um artigo próprio: Notório saber para mestres tradicionais.
Por que importa para a inclusão
Cotas resolvem quem entra. O Encontro de Saberes discute o que se ensina. Para estudantes indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais, ver o conhecimento de sua própria comunidade reconhecido em sala de aula muda a relação com a universidade, reduz a evasão e abre caminhos de pesquisa que antes não existiam. Para os demais estudantes, é contato direto com formas de conhecimento que o currículo convencional não alcança.
Onde buscar informação oficial
Este site é uma publicação independente e não representa o programa. As fontes oficiais são o Departamento de Antropologia da UnB, que abriga a rede de pesquisa, e as páginas das universidades que mantêm edições próprias. Sobre a história do instituto que criou o programa, veja O que foi o INCTI.