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Saberes tradicionais

Encontro de Saberes: mestres tradicionais na sala de aula da universidade

O programa que inverteu a direção do conhecimento: em vez de a universidade estudar as culturas tradicionais, mestres e mestras dessas culturas passaram a ensinar dentro dela, com créditos, ementa e avaliação.

Dossiê · 9 min de leitura · revisado em 2026-08-21

O que é

O Encontro de Saberes é uma disciplina de graduação em que cada módulo é ministrado por um mestre ou mestra de cultura tradicional: lideranças indígenas, mestres de terreiro, de brincadeiras populares como o cavalo-marinho e o maracatu, artesãos, parteiras, raizeiros. O professor universitário atua como mediador; quem conduz a aula é o mestre, no seu próprio modo de transmitir conhecimento, que costuma envolver corpo, canto, trabalho manual e oralidade.

O estudante se matricula como em qualquer disciplina, recebe créditos e é avaliado. O que muda é o lugar de fala: o saber tradicional entra na universidade como conhecimento em pé de igualdade, não como objeto de estudo.

Como nasceu

A disciplina foi criada em 2010 na Universidade de Brasília, no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), programa do CNPq coordenado pelo antropólogo José Jorge de Carvalho. A proposta partia de um diagnóstico: as políticas de cotas estavam abrindo a universidade a estudantes negros, indígenas e de escola pública, mas o currículo continuava exclusivamente eurocêntrico. Incluir pessoas sem incluir os seus saberes era uma inclusão pela metade.

Nos primeiros anos, o formato foi testado na UnB com módulos de mestres de diferentes regiões do país, registrados em vídeo e em publicações do instituto. Parte desse acervo está referenciada na seção Acervo deste site.

Expansão

Ao longo da década seguinte, o modelo foi adotado por dezenas de universidades públicas, entre elas a UFMG, a UFJF, a UFPA, a UFSB, a UFG e a UFRGS, cada uma com o seu desenho: algumas como disciplina optativa aberta a todos os cursos, outras integradas a programas de formação de professores ou a licenciaturas interculturais indígenas. Jornais universitários da UFRGS, da UFG e da UFJF registraram, em 2023 e 2024, seminários e edições locais do programa, que são a melhor fonte sobre o estado atual em cada instituição.

Notório saber

Um desdobramento importante foi o reconhecimento formal dos mestres. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9.394/1996, art. 66, parágrafo único) admite que o notório saber, reconhecido por universidade com curso de doutorado em área afim, substitua o título acadêmico exigido para o magistério superior. Com base nisso, universidades passaram a conceder a mestres tradicionais o título de notório saber, o que permite a contratação e o reconhecimento de sua trajetória dentro da carreira acadêmica. O tema tem um artigo próprio: Notório saber para mestres tradicionais.

Por que importa para a inclusão

Cotas resolvem quem entra. O Encontro de Saberes discute o que se ensina. Para estudantes indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais, ver o conhecimento de sua própria comunidade reconhecido em sala de aula muda a relação com a universidade, reduz a evasão e abre caminhos de pesquisa que antes não existiam. Para os demais estudantes, é contato direto com formas de conhecimento que o currículo convencional não alcança.

Onde buscar informação oficial

Este site é uma publicação independente e não representa o programa. As fontes oficiais são o Departamento de Antropologia da UnB, que abriga a rede de pesquisa, e as páginas das universidades que mantêm edições próprias. Sobre a história do instituto que criou o programa, veja O que foi o INCTI.

Perguntas frequentes

O Encontro de Saberes é um curso ou um evento?
É uma disciplina regular de graduação. Cada módulo é ministrado por um mestre ou mestra de cultura tradicional (indígena, quilombola, de terreiro, de ofício popular), com apoio de um professor da universidade. O estudante recebe créditos como em qualquer outra disciplina.
Quem pode dar aula sem diploma?
A LDB (Lei 9.394/1996, art. 66, parágrafo único) admite que o notório saber, reconhecido por universidade com curso de doutorado em área afim, supra a exigência de título acadêmico. Esse é o fundamento usado para que mestres tradicionais lecionem e, em alguns casos, recebam o título de notório saber.
Este site é o site oficial do programa?
Não. O Atlas da Inclusão é uma publicação independente. O Encontro de Saberes foi criado na Universidade de Brasília pelo INCTI; o domínio inctinclusao.com.br pertencia ao instituto e expirou em 2024. As informações oficiais atuais estão nas páginas das universidades que mantêm o programa e no Departamento de Antropologia da UnB.
Fontes
[1]Departamento de Antropologia da UnB, redes de pesquisa e colaboração (INCTI) — dan.unb.br
[2]CNPq, Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia por tema — estatico.cnpq.br
[3]Jornal da UFRGS, "A presença de saberes e conhecimentos populares e tradicionais tem potencial para transformar a universidade" — ufrgs.br
[4]Jornal UFG, "Saberes populares e tradicionais desafiam a universidade" — jornal.ufg.br
[5]Notícias UFJF, "Saberes populares e tradicionais têm potencial para transformar a universidade" — www2.ufjf.br
[6]Lei nº 9.394/1996 (LDB), art. 66, parágrafo único (notório saber) — planalto.gov.br
Revisado em 2026-08-21. Encontrou um erro? contato@inctinclusao.com.br